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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Mensagem de gratidão do Padre Vanderlan ao povo paulistanense

 

O Padre Vanderlan da Silva Félix de Lima celebrou, na noite do último domingo (23/08/2020), a sua última missa após os cerca de 8 meses de missão na Paróquia Nossa Senhora dos Humildes em Paulistana-PI.


Durante a celebração, grupos e pastorais prestaram homenagens e expressaram o seu agradecimento ao sacerdote, pela convivencia e trabalho no período em que esteve em solo paulistanense. Vanderlan seguirá agora para a Paróquia de Padre Marcos-PI, onde deverá ficar ate o fim do ano.

Para expressar a sua gratidão aos paroquianos de Paulistana, o Padre Vanderlan emitiu uma mensagem de agradecimento a todos, confira:


MENSAGEM DE GRATIDÃO A PARÓQUIA DE PAULISTANA


O livro do eclesiástico já previa esse momento quando disse: há tempo de chegar e tempo de partir, tempo de abraçar e tempo de se distanciar. Pois bem, chegou o tempo de partir, mas antes devo louvar e gradecer a Deus por essa experiência linda que a sua bondade me concedeu: ter exercido o meu ministério diaconal aqui nesta paróquia querida. E ter dado também aqui os meus primeiros passos como jovem sacerdote. Aprendi com a minha amada mãe, a não viver para que a minha presença seja notada, mas para que a minha ausência seja sentida, não poucas vezes eu ouvi ela me dizer: meu filho quem chega com decência, vai embora com respeito. Por isso, Bati delicadamente a porta dessa cidade pedindo licença para entrar e vocês me abriram mais do que as portas de suas casas, me abriram as portas dos seus corações. Para que vim a paulistana? Vim para ouvir mais do que para falar, vim para aprender mais do que para ensinar. Vim SER mais do que para FAZER, vim a fim de que minha estola diaconal fosse um pedaço da toalha do lava-pés. Não criei um eu ideal afim de pintar uma falsa imagem de mim e assim agradar, busquei ser o Vanderlan de sempre. E como Clarice Lispector posso dizer: por onde fui passando, fui deixando o melhor de mim, se alguém não me viu foi por que não me sentiu com o coração.


Me senti muito acolhido e amado por aqui, fiquei feliz, mas com o cuidado de não me envaidecer, não eram para mim os aplausos, os elogios é para aquele que eu vim representar, sou vaso de barro carregando um grande tesouro. Por causa dele, eu sou o que sou. Na canonização de São Padre Pio de Pietrelcina Paulo VI deu uma definição perfeita de sacerdote : "Veja que fama ele alcançou! Que clientela mundial reuniu em torno de si! Mas por quê? Por que era um filósofo? Por que era um sábio? Por que dispunha de meios? Não, mas porque rezava a Missa humildemente, confessava de manhã à noite; era, difícil de dizer, representante estampado dos estigmas de Jesus. Era um homem de oração e de sofrimento."   O padre é o homem da oração e do sofrimento.  Dom Henrique Soares diz que o sacerdote é o homem do coração ferido.


É verdade, Santa Teresinha tem razão quando diz: “Vimos sempre que os mais chegados a Cristo, Nosso Senhor, foram os que passaram pelos maiores sofrimentos”. Consideremos o quanto sofreu sua mãe, os apóstolos, os primeiros cristãos. O padre de hoje, bem como os demais cristãos, talvez não sejam mais martirizados, talvez não serão mais dados as feras nas praças públicas, não haverá mais o circo de Nero, não serão submetidos a torturas corporais. Mas deve-se estar preparado para o martírio da ridicularização, da perseguição e da humilhação. Essa também é muito doloroso, não se tem o corpo atingido, mas se tem a alma ferida, o coração despedaçado e a dignidade perdida O que fazer desistir da fé? Não Se você ama, você sofrerá. A única maneira de se proteger do sofrimento é se proteger do amor. E esse é o maior sofrimento de todos a solidão. (citar Dumbledoure): Harry, não tenha pena dos que morrem, mas dos que vivem sem amor.  


Apesar de pouco tempo de ordenado, devo lhes dizer, em muitos momentos dá vontade de descer do patíbulo da cruz, dá vontade a não se submeter a determinadas situações, mas se somos amigos do Senhor nas alegrias, por que não compartilhar também a sua cruz? Seria uma indelicadeza de nossa parte deixar o senhor crucificado sozinho: “não te peço Senhor que retires o meu sofrimento, mas que me dê força para suportá-los. Não te peço que me elimines a cruz, mas me ajude a abraça-la com firmeza”.


A cruz é o lugar de onde padre ensina e aprende. Como disse Hugo de São Vitor: “Não foram poucas as vezes que avancei sob duros golpes das esporas da fé, mesmo que o caminho estivesse interditado pelo anjo do mistério com a sua espada nua na mão me açoitando”. Me conforta saber que: “quando Deus quer fazer um homem grande, primeiro ele o deixa em pedaços”. O coração ferido as vezes é a única brecha que Deus encontra para entrar em nossas vidas. Povo de Paulistana, mesmo sem saber vocês me deram forças para continuar a caminhada, talvez, vocês não tenham noção, mas seus abraços, suas palavras, suas compreensões me salvaram nos meus piores dias.


Vocês me ajudaram a não desistir e muitas vezes mesmo sem saberem vocês me deram forças para continuar seguindo. Pois quando olhava para mim mesmo não via força suficientes, quando olhava para alguns me decepcionava, quando olhava para as circunstâncias me desencorajava, mas quando olhava para Jesus e para vocês ganhava uma força inexplicável para continuar. Fechava os olhos e escutava vocês me dizer: Vanderlan, não desista, recomece ainda que sinta cansaço, ainda que o triunfo te abandone, ainda que tudo se desmorone, ainda que o sonho desvaneça, ainda que as lágrimas turvem os teus olhos, ainda que ignorem os teus esforços, ainda que a incompreensão desmonte o seu sorriso, ainda que tudo pareça nada recomece. Foi aí que decidi lutar e continuar caminhando: Baseado nisto, narro agora uma cena exposta por Saint de Exupéry no seu livro, “terra dos homens”, a partir de um desastre aéreo onde um amigo seu ficou perdido nos Andes Chilenos, o desafortunado queria abandonar-se no seu leito de neve, esgotado pelo cansaço, mas lá no fundo de sua alma, a consciência lhe clamava: “se minha família e meus amigos pensam que vivo, pensam que caminho eu serei um covarde se não continuo caminhando”. Pensar assim cumulou o desvalido de uma energia incrível, como se fosse um potente guindaste que o levantava daquela mortal prostração, cada vez que caía. Uma força impotente o reerguia do solo em cada recaída. Cada vez que pensava em desistir dizia a si mesmo: eles estão me chamando; não posso falhar.


A responsabilidade escondida no mais íntimo do seu ser, movida pelo amor, arrancava-o da neve e de um só golpe e o precipitava para frente: Vamos coração, bate mais forte, temos que chegar, e ele começou a pulsar aceleradamente e a empurrar-me para frente. Ah eu tive orgulho do meu coração. E esse coração movido pelo amor o transportou três dias e três noites até ser encontrado. Eu acrescento o meu coração ardendo de amor pelo povo de Deus me transportou nas muitas agruras  e adversidades sofridas ao longos desses últimos tempos, e cada vez que estava decido a desistir me lembrava do povo simples de nossas comunidades, de nossas famílias, das pessoas que sentem tanto orgulho de mim, e dizía como Jesus na oração sacerdotal: “Pai por eles eu me consagro”, por eles eu aceito essas provações internas e externas, por ele eu renuncio as minhas vontades pessoais, por eles eu me calo mesmo estando certo, por eles eu abraço a cruz da humilhação,  por eles eu dou as costas a canga, eles precisam de mim eu serei um covarde se não continuar lutando. Deus me conhece, sabe trabalhar com instrumentos insuficientes, sabe fazer mosaico dos meus cacos. Por fim devo agradecer ao pai, ao irmão mais velho, ao amigo padre Wágner, as palavras são pobres para lhe dizer: MUITO OBRIGADO.

Nem sei como agradecer a Deus pelos dias que passei ao seu lado, pelos filmes, as risadas, as brincadeiras. Pela sua maturidade, pela seriedade com que o sr conduz as coisas, por saber aliar na sua personalidade responsabilidade com doçura e compreensão. Lewis diz que alguns amigos são homilias andando. Padre o sr é para mim uma homilia de bondade, de compreensão, de discernimento. Para toda paróquia eu desejo um padre como o sr, para todo diácono eu desejo um padre assistente como eu tive. O sr é a pessoa ideal para se ter num momento de dificuldade.  Essa convivência com o sr renovou uma convicção que tenho no meu coração, conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tratar uma alma humana, seja apenas outra alma humana (karl Hung). Sempre que precisar de mim estarei disposto a lhe ajudar, tenha em mim mais do que um irmão de presbitério, mas um amigo e um admirador. O sr me disse que paulistana era um pedacinho do céu, por isso que o sr está aqui, lugar de anjos é no céu.

Não posso esquecer das comunidades rurais, pelas celebrações que realizei, peço perdão aquelas nunca pude chegar, mas mesmo os trago também na memória, nos encontrávamos nas reuniões mensais de animadores. Uso a título de conclusão um bilhete anônimo do século XII deixado na Basílica de São Severo na Alemanha intitulado de “não vá embora” esse bilhete será o nosso nunc dimitis “o deixai agora vosso servo ir em paz” que rezávamos a cada noite na conclusão do dia: “Não vá embora sem a paz de Cristo, não vá embora sem agradecer a Deus que é seu pai, não vá embora sem ti confiar a Deus. Não vá embora sem esperar que Deus fale contigo, não saia sem a decisão de ser pão para os outros. Não saia daqui sem deixar-se inflamar pelo espírito, não vá embora sem ter rezado pelos teus inimigos, antes de sair abrace-te com Deus e acima de tudo deixa Deus te abraçar”.


Uso enfim, as palavras de Dom Pedro Casaldáliga: Ao final do caminho me dirão: e tu viveste? Amaste? E eu abrirei o meu coração cheio de nomes”. Obrigado!

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