Educação e Afeto: Como um trauma de infância transformou um professor no 'Homem-Aranha' da rede pública de Paulistana

Vestido com os trajes do Homem-Aranha, o professor Breno da Silva caminha entre as fileiras de carteiras de uma escola pública na região sudeste do Piauí. A cena, registrada durante as celebrações da Semana das Crianças, reflete uma metodologia pedagógica que une o lúdico ao rigor acadêmico, mas que, acima de tudo, prioriza o acolhimento.

Foto: Arquivo Pessoal

Com 12 anos de carreira divididos entre as redes públicas municipal e estadual das cidades de Jacobina do Piauí e Paulistana, o educador converteu uma experiência traumática vivida na infância em combustível para uma prática docente baseada no afeto e na defesa dos direitos humanos.


Neste dia 15 de outubro, data em que se celebra o Dia dos Professores, a história de Silva ganha um significado ainda mais profundo. A rejeição a métodos punitivos tradicionais é uma das marcas de sua trajetória nas duas cidades: o docente nunca aplicou uma suspensão ou encaminhou um estudante à diretoria.

Foto: Arquivo Pessoal

"A sala de aula é o meu espaço de realização e equilíbrio. Entendo que o papel do professor vai muito além do cumprimento de diretrizes burocráticas; nossa missão é interferir positivamente na trajetória de vida do estudante", afirma Silva.


Do trauma ao propósito pedagógico


A arquitetura de sua filosofia de ensino foi moldada aos 11 anos de idade, quando cursava a antiga 4ª série do ensino fundamental. Órfão de pai, Silva foi vítima de uma agressão física e psicológica humilhante por parte de um professor que, ciente da vulnerabilidade familiar do estudante, agiu com a certeza da impunidade.


"Mesmo em prantos, confrontei aquela situação dizendo que, no futuro, eu me tornaria professor para fazer exatamente o oposto com os meus alunos", relembra. Desde então, o conceito de "professor-protetor" tornou-se o pilar central de sua atuação, sobrepondo-se às formalidades administrativas do cotidiano escolar em suas jornadas em Jacobina do Piauí e Paulistana.

Foto: Arquivo Pessoal

Coautoria e protagonismo: a literatura como ferramenta de inclusão


Atuando expressivamente como um defensor das causas de inclusão, Silva mantém um controle rigoroso sobre o desenvolvimento do ensino-aprendizagem, com ênfase em Língua Portuguesa e Matemática. Sua prática docente é pautada na premissa de que a equidade educacional só é alcançada quando se criam caminhos para que todos os estudantes participem ativamente do processo de construção do conhecimento, independentemente de suas condições sociais ou neurodiversidades.


O ápice dessa integração pedagógica resultou no desenvolvimento do livro didático-literário "As Aventuras de Sofia", uma obra de coautoria construída a partir do protagonismo intelectual e criativo de seus alunos do 4º ano do ensino fundamental. Na narrativa idealizada pelas crianças, os personagens constroem uma máquina do tempo e viajam pelo passado.

Foto: Arquivo Pessoal

Contudo, em vez de focar nas figuras históricas tradicionais, o roteiro elaborado pela turma investiga a fundo os problemas enfrentados pelos povos indígenas do Piauí e a violência sistemática praticada pelas expedições dos bandeirantes na região.


O projeto destaca-se ainda pelo caráter inclusivo e pela ponte criada entre diferentes ciclos escolares e municípios: as ilustrações oficiais do livro foram inteiramente desenvolvidas pela aluna Inês Delmondes, estudante neurodivergente do ensino médio.


Ao transferir os conceitos das crianças para o papel, a jovem desenhista assumiu papel central na identidade visual da obra, retratando com sensibilidade a resistência dos povos originários e o apagamento histórico das populações marginalizadas. A abordagem assegura que o protagonismo e as competências cognitivas e artísticas sejam estimulados de forma equânime, promovendo o pertencimento de todo o corpo discente.


Princípio inegociável: cidadania e proteção aos mais vulneráveis

Foto: Arquivo Pessoal

Embora o diálogo e a flexibilidade ditem a convivência diária nas salas de aula de Jacobina do Piauí e Paulistana, o professor estabelece normas rígidas de conduta desde a primeira semana de aula. Entre elas, destaca-se o que ele denomina como uma "cláusula pétrea" de sua gestão de sala: a tolerância zero contra qualquer ato de violência contra as mulheres ou pessoas vulneráveis.


"A violência contra quem é mais vulnerável não define a vítima, mas evidencia a assimetria social, física, econômica ou psicológica imposta pelo agressor. Combater essa mentalidade e garantir o respeito total às mulheres desde a infância é um compromisso pedagógico e humanitário", defende o educador.


Ao alinhar o cumprimento da base curricular nacional à sensibilidade social, à inclusão e ao esporte, Silva consolida nas duas cidades um modelo de educação pública que protege a infância e reescreve narrativas dentro e fora dos muros escolares.

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